quarta-feira, 7 de março de 2018

#REPEITAASMINAS: muito mais que uma hashtag na camisa

Incomoda-me a concepção, ainda presente no mundo esportivo, de que futebol é assunto de homem. Apesar das conquistas do movimento feminista, ainda existe em nossos dias quem conceba a sociedade com papéis específicos e delimitados pelo sexo, considerando determinados assuntos e atividades como exclusivos e inerentes à condição sexual das pessoas. Os que assim pensam delimitam o que cada sexo pode e deve fazer e quais os interesses apropriados a cada um em função das suas características biológicas. Obviamente, tal concepção acarreta inúmeros preconceitos e discriminações bem como a exclusão. E um dos tabus decorrentes dessa visão estreita é delimitar o futebol ao universo masculino e  tentar excluir a mulher do mundo do futebol. 
Consequentemente, a mulher que se interessa por futebol encontra uma série de barreiras nas suas diferentes formas de participação, seja como profissionais (jogadoras, árbitras, técnicas e jornalistas), como dirigentes ou como torcedoras. 
No Brasil, essa situação foi agravada pelas condições históricas do desenvolvimento do futebol feminino. Por muito tempo, a prática do futebol foi exclusividade do mundo masculino. O futebol foi um dos esportes proibidos para as mulheres no país durante a era Vargas, cuja negação do seu exercício às mulheres se estendeu até a ditadura, sendo que a modalidade só foi liberada para a prática das mulheres em 1979. Proibido por mais de 40 anos, o futebol feminino tem mais tempo de proibição do que de prática, o que explica em parte a falta de incentivo à modalidade.
Mas a desigualdade e a discriminação também acontece em relação a outras atividades ligadas ao esporte bretão. Além das dificuldades estruturais ligadas ao exercício profissional, ela também ocorre no âmbito da gestão e da própria torcida. Profissionalmente, o futebol feminino está numa condição de inferioridade em relação ao masculino, quanto aos salários, estrutura de treinamento, espaço físico e equipamentos. Na direção dos clubes, na arbitragem e na imprensa, a representatividade da mulher é bem menor que a masculina. E nas torcidas, a mulher ainda é discriminada e, inclusive, excluída de algumas atividades nas torcidas organizadas. 
Se não bastasse tudo isso, as mulheres ainda têm que provar nas discussões que conhecem a regra de impedimento. Caso contrário, se não mostrarem conhecimento das regras futebolísticas, não serão respeitadas como torcedoras. Por incrível que pareça, ainda há quem recrimine a presença da mulher no estádio desacompanhada do pai, do marido ou do namorado. 
Nesse dia internacional da mulher, mais do que homenagens, queremos respeito. E respeito é muito mais que uma hashtag na camisa de jogo.
#RESPEITAASMINAS significa oferecer as mesmas condições financeiras (inclusive salários), técnicas e estruturais ao futebol feminino e masculino, bem como dar-lhe maior visibilidade e o mesmo espaço e tempo na mídia, valorizar social e financeiramente as profissionais nos seus diferentes ramos de atividades, aumentar a participação feminina na direção dos clubes e não discriminar a mulher torcedora. E num caso bastante concreto, que a possibilidade das jogadores atuarem nas arenas e nos estádios não esteja restrita ao acompanhamento do time masculino. Merecemos mais que uma homenagem e nossas jogadoras têm o direito de fazerem muito mais que figuração num jogo do time masculino. 
Isso não significa que a homenagem não seja válida. Mas se ela não vier acompanhada de medidas efetivas dos clubes, das federações, das confederações e da mídia em prol da aceitação irrestrita e da inclusão da mulher no mundo futebolístico, não passará de mais uma homenagem realizada no dia internacional da mulher e esquecida nos demais dias do ano. 

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